quarta-feira, 4 de junho de 2008

O cemitério

O Cemitério
O lugar dos mortos é também dos vivos. Espertos. Os funcionários da funerária só permitem que as lápides sejam feitas por pedreiros credenciados, com material comprado de fornecedores cadastrados. Todos amigos, evidentemente. As famílias sempre dão uma caixinha para quem ajuda a fechar a cova, cimentar a gaveta, lacrar as tumbas. A limpeza do local é sempre paga por fora. Depois que o féretro termina, as velas e as flores, ainda mais as coroas, se houver, são recolhidas e revendidas. À noite, os caixões são violados e os defuntos saqueados: roupas, sapatos, jóias. Às vezes, até órgãos para estudo são vendidos. Sem falar quando o morto é moça, bonita. Ai, melhor não contar o que acontece, muita perversão.
Cemitério pode ser lugar de descanso para os mortos, mas para os vivos é uma agitação. Abre cedo, com velórios, enterros, missas, homenagens, falatórios, séqüitos. O comércio legal e ilegal corre o dia todo, dentro e fora. Além das flores, velas e enfeites para as sepulturas, alguém tem que fornecer refrigerantes, salgadinhos, coisas para aplacar a fome. Disfarçar o estômago vazio, já que o vazio da saudade já é outra coisa. Guarda sol vende bem. Alugam-se banquinhos. Há muito que fazer, para que o morto possa não fazer mais nada. A noite não há enterro, mas há os saques. E os casais de namorados, por incrível que pareça. Alguns até se abrigam nos túmulos maiores e fazem amor, um contraste gozar a vida em cima de um morto. Talvez dê até mais prazer, pela pirraça.
Têm muita gente que mora em cemitério. É um lugar que a gente sabe que nunca vai sair do lugar, pois ninguém vai mexer com os mortos. Não é como fábrica, que fecha. Como casa, que derrubam para passar avenida. Se um cemitério é cemitério hoje, será sempre. Podem mudar os mortos, a família tira um e põe outro. Mas o cemitério em si sempre fica no lugar, sempre estará lá. Mais eterno que a vida eterna do defunto.
Coisa que tem muito em cemitério é pipa colorida. Não tem árvore, não tem fio. Na época de vento, os meninos chegam cedo e logo o céu se enfeita de várias cores, as rabiolas a agitar o céu. É olhar para cima e ver aquela profusão de modelos, tipos e cores. Sei que no outro extremo da linha tem um garoto feliz. Mesmo sem o ver, sei.
Não lembro muito da minha infância. Não por ter memória ruim, mas por não ter mesmo muito a lembrar. Minha mãe, desde que nasci, trabalhava no apartamento de uma mulher, uma senhora viúva para ser mais exato. Dormíamos no trabalho, de domingo a domingo, no quartinho de empregada, os dois em um colchonete. O pequeno quarto e a área de serviço eram o meu território, de onde eu não saia, para não perturbar. Primeiro engatinhava, depois andava. Correr? Não havia espaço.
Do quartinho, eu ouvia os sons. Quando silenciava tudo, era porque minha mãe estava pelo apartamento, limpando. Quando tinha barulho na cozinha, era antes de alguma refeição. De outras pessoas, só ouvia as vozes. E a voz da minha mãe eu pouco ouvia, ela era de falar pouco. Passava o dia quieto em meu pequeno território, que então era o mundo todo. Até a noite e o sono me libertarem do tédio. Não sonhava.
Quando eu estava com 6 anos, tempo que rondava a ameaça de ir à escola, minha mãe foi ao mercadinho comprar açúcar. Ao atravessar a rua, na corrida com um ônibus para ver quem chegava primeiro ao meio fio, o coletivo venceu. Cobriram com jornal para esperar a polícia técnica, a perícia, a autópsia. Foi a melhor assistência que minha mãe teve.
No velório, lá estavam: a viúva, o porteiro, o zelador, algumas outras empregadas do prédio. Acho que foram ver o próprio futuro.
No enterro, parte das pessoas já tinha desaparecido. Enquanto o funcionário da prefeitura fechava a gaveta, fui ficando. Disfarcei, fingi que não era comigo. Olhei para o céu: pipas coloridas tremulavam ao vento. Ninguém quis fazer a desajeitada pergunta, porque todos sabiam a resposta: eu não tinha para onde ir.
O tempo passou, sei pelas datas das lápides. Incorporei minha vida anônima ao cotidiano do cemitério, não fui notado. De dia, cuido do meu sustento. À noite, arrumo uma cama na base do muro do gaveteiro onde está minha mãe e durmo, pensando nela e esperando o dia chegar. Não o dia seguinte, igual a todos os outros. Mas o dia em que eu possa ir para dentro do gaveteiro, dormir ao lado da minha mãe, como antes do ônibus. Ou até dentro dela, como antes de tudo.

6 comentários:

Olga disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Olga disse...

Ri, fiquei séria e terminei quase chorando! Por que fantástica viagem a gente segue esse homem até seu passado! E como ficamos com ele ali, junto da mãe morta, dormindo no frio e no abandono só para não ficar sozinho e (quem sabe) para não deixá-la só também. Bela imagem também a das pipas coloridas sobre o cemitério. Como você diz no começo, o cemitério é ígualmente lugar de vida (ou de pessoas vivas). Para ler e reler!
Gostei!

(Desculpe! Entrei, postei este mesmo comentário, fui arrumar uma frase que estava confusa e deletei o comentário inteiro! A "postagem removida pelo autor" era esta mesma, só que removida pela anta aqui! Mil perdões!)

Nelson Lourenço disse...

Faltou um pouco de poesia, talvez uma certa chispa no texto, sei lá

Claudia disse...

Comovente, Luiz.
O texto começa como quem não quer nada, e com um certo humor. E vai ganhando dramaticidade até seu fim. Muito bom.
Um beijo, Claudia.

Sady Folch disse...

Luiz tenho um poema que publiquei no blog que diz sobre "O dia em que eu for embora"...me lembrei muito dele....em especial no final d seu texto...esse final é emocionante, profundo, poético, verdadeiro...esse final foi digno da natureza dos seres.
Abraços
Sady

Nanete Neves disse...

Uma história humana e sensível. Por mim, ela começaria a partir do "Nasci.......", e deixaria para encaixar algumas das belas imagens do início do conto a partir do momento em que ele começou a viver no cemitério. Parabéns pela criação!