quarta-feira, 4 de junho de 2008

Cena - tempestade

Quando cruzamos o paralelo 57S, as vagas apareceram definitiva e assustadoramente. As primeiras, de cinco metros de altura, seguidas. Depois, seqüências de três ou quatro ondas de cinco metros, intercaladas por vagalhões de quase dez. Quando vinham no sentido oposto à proa, o navio subia e descia. Mas, quando vinham formando ângulo com a nossa rota, éramos inclinados não só no sentido longitudinal como, para nosso terror, no transversal. A impressão era que emborcaríamos a qualquer instante. Os motores falharam, mas felizmente não pararam.
Então, veio o primeiro vagalhão de mais de dez metros, um dos famosos. Por sorte, veio perpendicular a nossa rota e o navio subiu, inclinou, apontou para o céu cinza e desceu do outro lado, rumo à base da onda. Ameaçou afundar, mas retomou a flutuação. Alguns conseguiram se segurar e, grudados às janelas bem fechadas, mantinham os olhos bem abertos. Outros, assim como todos os objetos, utensílios, roupas, equipamentos e mapas, estavam pelo chão, balançando ou rolando, conforme os movimentos do barco. Os fechos não suportaram e os armários se abriram. Nas janelas, a água entrou abundante pelas frestas.
Depois deste único vagalhão de cerca de 15m, voltamos a rotina dos vagalhões de 5, 10m, e o Old Tin seguia em frente. Relaxamos, achando que o pior estava superado, uma mera elevação de 15m perpendicular a nossa rota. Otimistas em excesso e com inexperiência em abundância, demoramos a entender o que estava à nossa frente. Parecia o reflexo em algum defeito do vidro ou alguma ilusão de ótica provocada pela neblina. Mar vertical não existe. Foi assim que encontramos o primeiro vagalhão descomunal, com mais de 15, talvez 20m de altura. O Old Tin subiu a parede líquida rumo ao céu invisível, entrou por inteiro dentro da neblina, ficou no ar, se inclinou para frente e desceu de uma vez, provocando enorme estrondo ao chocar-se com a superfície da água. Como um trovão. Ninguém ficou em pé. Nada ficou no lugar. O sinal de alerta mediano soava, bem ao fundo.
Era claro que não estávamos preparados para a travessia da Convergência, apesar de todas as advertências. Se nos olhos dos experientes eu via nitidamente sinais de medo, o que dizer dos olhos dos novatos. Alex estava desfigurado. Fran, firmemente segura, mantinha Milla entre seu corpo e a parede, de tal forma que eu não via suas expressões. ZB rezava agarrado a uma corrente que pendia de seu pescoço como se fosse a sua bóia.
Mal nos recuperamos da queda, vimos pelas janelas que estávamos em uma depressão rumo a outra elevação gigantesca. O Old Tin subiu a parede, ficou com a proa no ar, se inclinou para frente, contornou a crista arredondada e desceu como chumbo. Todos ao chão outra vez. Nos levantamos ligeiros, a tempo de ver que a próxima vinha em seguida. Subimos, contornamos a crista, descemos do outro lado, mas não tivemos tempo de estabilizar a flutuação na depressão: outro vagalhão desmedido nos atingiu e o atravessamos praticamente submersos. Por eternos segundos, o Old Tin se transformou em um submarino. Fomos à superfície subindo o novo paredão aquático, como se estivéssemos em um pequeno bote a ser engolido no próximo minuto. O navio chegava a recuar, apesar dos motores a toda, que vibravam ainda mais pelo esforço redobrado. Porém, o velho Old Tin seguia em frente, destemido.
Não sei exatamente quanto tempo durou a verdadeira surra, nem por quantas vagas imensas passamos, nem de que maneira. O fato é que elas foram diminuindo de tamanho. Dos talvez 20, para os 10 e depois se estabilizaram abaixo dos 5m de altura, o que para nós já eram meras marolas.

Um comentário:

Sady Folch disse...

Caramba Luiz, essa foi pancada hein !
Lendo esse texto me lembrava dos filmes Posseidon e Titanic...e em meio a isso, também das surras que eu tomava na adolescência quando era surfista no Rio de Janeiro.

PO meu, essas cenas são boas mesmo...de tirar o fôlego.
Abraços
Sady