terça-feira, 24 de junho de 2008

Despacho da Rainha

O Despacho da Rainha.
Eva Luna, a Rainha de Macondo, chegou a seu gabinete na Torre Negra. Era o dia dedicado a desembaraçar os estorvos do reino, o que abominava. Sobre a mesa, encontrou a pauta, ali deixada por sua mucama Maria Moura.
O primeiro caso a ser julgado era uma perfeita idiotice. Um italianinho, calvo de nascença, dera para intitular-se Barão e andar por sobre as árvores, o que assustava as senhoras de fino trato. Deu como pena ao garoto seis meses de trabalho como apanhador nos campos de centeio, uma tentativa de fixá-lo ao solo.
O decreto do fechamento de um prostíbulo, conhecido como Casa Verde por uns, e como “clube da felicidade e da sorte” por outros, só levou o tempo da assinatura. O mesmo tempo que despendeu para proibir as conversas na catedral e anular o casamento entre os súditos Policarpo Quaresma, membro da ilustre casa dos Ramires, e a jovem plebéia Isaura Benário. Apesar de ter um rosto de menina, a moreninha fora tratada pelo marido como se escrava fosse, com a conivência de sua própria mãe, a conhecida reacionária Olga.
Para tal Ismael, velho pescador de baleias, mentiroso contumaz e péssimo pagador de promessas, ordenou tratamento com o alienista local. Que grande mentecapto, concluiu a Rainha.
Julgou de uma penada dois casos de adultério parecidos. Como havia atenuantes, apenas aplicou a pena de perda de título. Da súdita Ema Bovary, tomou-lhe o título de Madame; de Connie Chatterley, o de Lady.
Mal leu o processo de uma briga de vizinhos por causa de um burrinho pedrês. Apesar de ser um fato insignificante, quase começa uma revolução entre os bichos de uma das fazendas, insurreição que levada ao extremo poderia virar uma guerra de fim de mundo naquelas veredas de sertões agrestes.
Analisou um dossiê, denominado sabe-se lá por que como “Odessa”, que tentava responder quem matara Palomino Molero com uma punhalada no escuro. Embora fosse uma morte para lá de anunciada, os detetives muito particulares estavam sem pistas para uma acusação de homicídio, imbróglio que poderia desmoralizar Lituma, seu chefe de polícia.
Para manter a forma, a Rainha Eva Luna não almoçava, horário que ela pejorativamente denominava de “hora dos ruminantes”. Querendo espairecer, lançou um olhar pela janela. Nos jardins do Palácio, com seu fiel cão amarelo, lá estava o velho General, perdido em seus labirintos de memórias quase póstumas, aposentado e solitário, pois sequer lhe escreviam cartas ou bilhetes. Viu também que lá estavam os cacos de um vitral quebrado na última tempestade. Aborreceu-se com o fato, pois não admitia dar qualquer motivo para alguém pensar que ali eram terras de ninguém, sem donos e sem fins.
Desviou o olhar para os lírios do campo, imaginando quantas cidades e serras existiriam por trás daqueles montes. Acabou por passar pela porta aberta e, na varanda sobre o silêncio, não conseguiu evitar que seu pensamento vagasse e fosse aos miseráveis camponeses, com suas vidas secas, trabalhando desde antes que o sol se levantasse, em uma lavoura arcaica de terras ásperas, partes que lhe cabiam nos latifúndios. Sorte não muito diferente daqueles que viviam em cidades quase invisíveis, em cortiços, subúrbios ou favelas, mas que, como autênticos cavalheiros da esperança, sorriam quando uma banda passava. Eles eram a razão dela lutar mil e uma noites, se preciso fosse, para que tudo não virasse um mundo de Vasabarros.
De supetão, sentiu um aperto no coração, como se um breve instante de leveza do ser fosse insustentável. Mas logo se refez, pensando que se a vida tinha lá suas perdas, também tinha seus ganhos. Boa ou má hora, precisava voltar ao trabalho.
Novamente concentrada em suas tarefas judiciais, leu o relato de um náufrago, um turista acidental de São Paulo, que por pouco não se afoga em águas profundas, pelo que pedia indenização, com base na lei 1964. Ela se irritou:
- Malditos paulistas, vou ter que ler aquele código!
Depois pegou um processo sobre uma menor abandonada, codinome: Rosa Maíra. Olhou o retrato em sépia. Mesmo nascida indigente, de fato era uma filha da fortuna por suas belas feições de anjo. De certo o destino lhe reservaria um encontro marcado com um belo príncipe montado em um cavalo branco. Suspirou:
- Ah! Os risíveis amores da juventude!
O último caso do dia lhe pareceu confuso, talvez por já estar enfadada. Leu e releu. Ser justa ali seria um batismo de fogo, se ela ainda fosse a jovem inexperiente que assumiu o que então era apenas um trono no morro. Porém, após quase cem anos de solidão no poder, soube reconhecer uma típica situação delicada. O texto do processo tinha sutilezas, insinuações, era dúbio. Decidiu pedir um exame de DNA para por fim às dúvidas quanto à paternidade do garoto, que estava sob a custódia de uma tia em Matacavalos. Os interpelantes, o casal Capitu e Bentinho, que esperassem pelo resultado.
Por fim, carimbou os nobres dizeres “nem tambores, nem cornetas”, e assinou a ata com seu título completo: Eva Luna Garcia e Llosa de Allende, Rainha de Macondo, Dama de Alegre Figura.

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